Monday, September 13, 2004

Colcha de retalhos

Quem sou eu? Um nome? Um número? Um conjunto de documentos?
Isso não é uma crise de identidade não, apenas uma reflexão. Se eu sou o conjunto de fatos que aconteceram na minha vida, então à medida em que eu envelheço eu vou me tornando alguém cada vez mais completo. Completo ou complexo?
Isso significa que eu não tenho controle sobre a minha personalidade. Controle nenhum. Eu apenas aprendo e apreendo o que acontece ao meu redor. Nasci em São Paulo há 18 anos, estudei em duas escolas diferentes, morei por cinco anos em um prédio no Brooklyn novo e há 13 anos moro em um condomínio. Eu sou aquilo que o mundo que eu conheço me mostra.
Posso até ter o poder de escolha das minhas ações, mas não tenho poder algum sobre o leque de opções que me é oferecido em cada situação.
Se ao nascer minha mãe tivesse me colocado em um orfanato e um casal de indianos me adotasse e fosse morar comigo em uma aldeia da África do Sul, eu seria alguém totalmente diferente de quem sou hoje.
Então quem sou eu? Como me apresentar a alguém se nem eu mesma me conheço? Como me definir?...
Para quê serve essa preocupação que todos têm em se diferenciar? Isso não requer esforço algum!! Ninguém que nasceu no mesmo hospital que eu foi levado para casa pelos mesmos pais nem tem a mesma história de vida. Cada um tem sua própria bagagem cultural, portanto eu sou única. Nem se tentarem me copiar vão conseguir porque eu não sou o que visto, não sou o que como e muito menos o que faço. Eu sou o que sei. Sou tudo aquilo que aprendi e as conclusões que tiro a partir do que penso estar certo. Posso ter aprendido muitas coisas inúteis e até manter crenças tolas, mas quem é que poderá julgar isso sem ter estado na minha pele durante todos esses anos? Só eu posso.
Só eu tenho o benefício de me conhecer por inteiro e o direito de me amar ou me odiar com tamanha intensidade.
Ainda não sei o que sou e enquanto tento descobrir vou me tornando a pessoa que sou. Confuso?? ... Talvez. Mas é isso mesmo.
Eu sou identidade e alteridade. Sou o que sou, o que penso que sou, o que os outros pensam que eu sou e o que eu penso que os outros pensam que eu sou.
Sou tudo e nada ao mesmo tempo. Sou tudo que sei e sempre soube. Não consigo me achar melhor ou pior que eu mesma e não conheço ninguém tão bem quanto me conheço para poder fazer uma comparação decente. Resumindo: não existem parâmetros para mim.
Eu sou eu! Não sou mais nem menos que ninguém, apenas diferente. Diferente sempre! Se você me conheceu ontem não me conhece hoje e se conviveu comigo a vida toda não se limite ao que acha que sabe. Eu já fiz coisas que nem eu conseguiria imaginar, muito menos você!!
Eu gosto disso e daquilo agora mas daqui a pouco eu mudo meu gosto. Mudo minha forma de pensar. Mudo minha personalidade toda. Redireciono minha vida, faço novos planos.
Mas se você disser que é tal coisa eu prometo que vou acreditar. Porque você realmente é o que diz no instante em que diz ser. E quem sou eu para contrariar alguém??
Nem a minha vida eu sei toda! Tem tanta coisa que eu já esqueci. Alguns momentos que amigos me lembram, outros que eu recordo ao olhar fotos e textos antigos. Muita coisa eu não vou lembrar nunca mais. E nem quero. Para quê lembrar-se de tudo afinal? Eu quero é viver muito mais, cada dia uma nova surpresa, e lembrar apenas daquilo que marcou, o que valeu a pena.
Ainda não sei quem sou e acho que nunca descobrirei, mas se eu sou as experiências pelas quais passei, a minha vida é apenas uma enorme colcha de retalhos.

No comments: