Thursday, September 01, 2005

Sapatos de corrida

Ela seguiu em direção ao vazio, por puro escapismo. Fugindo não sabia de quê, mas correndo e gritando e gemendo e chorando. E tentando entender.
Uma dor avassaladora no peito, aquele cheiro de mato molhado, os batimentos acelerando a cada instante. Sentia o vento adentrar-lhe os pulmões e gelar-lhe o interior. Sentia a vida, como há muito tempo não fazia. E por isso continuava a correr.
A cada passo redescobria uma emoção. A cada minuto desprendia uma amarra. Era livre outra vez e ainda não sabia para quê. Mas sentia-se bem.
Pensamentos lhe passavam pela cabeça como aves migrando para o sul no inverno: não paravam um segundo sequer. Podia sentir as aulas de ciência: milhares de moléculas agitando-se cada vez mais a cada milímetro de seu ser.
Nesse momento gabava-se: “Engana-se quem pensa que corro sem direção: Estou atrasada para um longo encontro. Estou ansiosíssima para saber se me aprovo”.
E foi simples assim que, fugindo de sua gélida rotina circular e desinteressante, ela conseguiu alcançar a vida. Bastou a coragem para calçar os sapatos.

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